Quando saiu do hospital, ainda com o corpo dolorido pelo atropelamento, ele pensava em apenas uma coisa: a bicicleta. Era antiga, marcada pelo uso e pelo tempo. Para muita gente seria apenas um objeto gasto. Para ele era tudo. Era o meio de se deslocar pela cidade e também a ferramenta que tornava possível trabalhar.
Durante os dias em que ficou internado, a bicicleta havia sido recolhida ao depósito do Detran-DF. Quando recebeu alta, percebeu que recuperar aquilo que era seu não seria simples. Não tinha nota fiscal. Não tinha documentos. Não tinha quase nada além da lembrança do acidente e da certeza de que aquela bicicleta lhe pertencia.
Mesmo com dores, caminhou quilômetros até chegar a uma ouvidoria. Ali, pela primeira vez desde o acidente, alguém parou para ouvir sua história.
A ouvidora Ana Carolina e a servidora Nagla Veras perceberam que aquele caso não cabia apenas dentro de um procedimento administrativo. Para devolver a bicicleta ao dono, seria necessário reconstruir uma história que não estava registrada em papéis.
Começou então um trabalho paciente. Telefonemas, consultas a registros do Corpo de Bombeiros, buscas em boletins de ocorrência e conversas com diferentes unidades até que as peças do quebra-cabeça começassem a se encaixar. “Pela lei, o desafio era grande, mas pela humanidade era impossível não agir”, lembram. Durante as buscas, receberam a informação que, caso houvesse documentação oficial comprovando o acidente e o recolhimento da bicicleta seria possível autorizar a liberação. Então, foi iniciada a busca pelo boletim de ocorrência ou registro de atendimento dos bombeiros.
Celebrado em 16 de março, o Dia da Ouvidoria é um momento de reconhecer a importância desse instrumento de participação social e de construção de políticas públicas mais adequadas às necessidades da população.
A articulação seguiu entre a Ouvidoria e a Diretoria de Policiamento e Fiscalização de Trânsito do Detran-DF. Aos poucos, a narrativa do acidente foi ganhando forma documental. Quando a liberação foi autorizada, o reencontro aconteceu sem cerimônia. A bicicleta estava ali, simples como sempre foi.
“Era uma bicicleta com as marcas do tempo. Para o mundo talvez não valesse muito. Para ele, era o seu mundo”, conta Ana Carolina Oliveira de Almeida. Ele saiu devagar, ainda machucado, empurrando a bicicleta com cuidado. No rosto havia um sorriso discreto de quem ainda sentia as dores do acidente e também aquelas que a vida deixa.