TCendo o Futuro: 160 estudantes da rede pública simulam fiscalização de obras no plenário do TCDF
Notícia 24/08/2026 às 11h14

TCendo o Futuro: 160 estudantes da rede pública simulam fiscalização de obras no plenário do TCDF

Alunos participaram de atividades práticas sobre arrecadação, aplicação e fiscalização do dinheiro público

E se uma criança pudesse decidir onde construir uma escola, fiscalizar a obra e até participar do julgamento de possíveis irregularidades? Foi assim que cerca de 160 estudantes da rede pública do Distrito Federal aprenderam, na prática, como o dinheiro público é arrecadado, aplicado e fiscalizado durante a visita do projeto TCendo o Futuro, realizada nos dias 20 e 21 de agosto, no Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF).

Premiado com o primeiro lugar na categoria Fiscalização do 11º Prêmio Abel, promovido pela Associação Brasileira das Escolas do Legislativo e de Contas (Abel), o TCendo o Futuro ofereceu aos alunos uma programação que combinou brincadeiras, visitas guiadas e atividades interativas para ensinar como os impostos financiam políticas públicas e de que forma a fiscalização contribui para melhorar os serviços prestados à população.

Promovido pela Escola de Contas Públicas do TCDF (Escon), em parceria com a Secretaria de Educação do Distrito Federal, o TCendo o Futuro foi lançado em caráter piloto no fim de 2024 e passou a ser realizado regularmente a partir de 2025. A iniciativa apresenta aos estudantes, de forma lúdica, imersiva e acessível, o papel dos tribunais de contas e busca estimular o protagonismo, a participação cidadã e o controle social.

Na visita desta quinta-feira (20), o Tribunal recebeu estudantes da Escola Classe 1 do Guará, da Escola Classe 8 de Taguatinga e da Escola Pública Integral Bilíngue Libras e Português Escrito. Na sexta-feira (21), participaram alunos da Escola Classe Vila do Residencial Carlos Gilberto, em São Sebastião, da Escola Classe 403 Norte e da Escola Classe 708 Norte. A maioria dos participantes cursava o 5º ano do ensino fundamental. Na Escola Pública Integral Bilíngue Libras e Português Escrito, os estudantes integravam turmas multisseriadas formadas por jovens surdos com idades entre 11 e 17 anos.

Durante conversa com os participantes, o regente da Escola de Contas Públicas do TCDF, conselheiro Renato Rainha, respondeu à pergunta de um dos estudantes da Escola Classe 1 do Guará sobre o trabalho realizado no Tribunal. “Uma parte do salário do seu pai e da sua mãe vai para o cofre do governo. É com esse dinheiro que o governo faz estradas, escolas, hospitais e outras obras públicas. A nossa função, e a de todos os servidores do Tribunal, é fiscalizar para que esses recursos sejam utilizados com honestidade e competência e resultem em serviços públicos de qualidade”, explicou.

Aprender brincando

A experiência é planejada para que os estudantes deixem de ser apenas ouvintes e se tornem protagonistas do processo de aprendizagem. Em vez de uma aula tradicional, o projeto utiliza uma sequência de atividades nas quais as crianças experimentam, na prática, conceitos como cidadania, orçamento público e fiscalização dos recursos públicos. A metodologia adotada pela Escon é baseada na resolução de problemas e na participação ativa dos alunos, permitindo que o conhecimento seja construído a partir da experiência vivida durante a visita ao Tribunal.

Uma das atividades da programação ajudou os estudantes a compreender, de maneira concreta, como funciona a arrecadação de impostos. Antes do lanche, cada participante recebeu um dinheiro cenográfico para pagar o kit de alimentação. Na simulação da compra, a cédula possuía duas partes: uma correspondente ao valor do produto e outra destacável, que representava os impostos. Essa parcela era depositada em um cofre, simulando a arrecadação do governo. Assim, os estudantes puderam visualizar de forma simples como os impostos pagos pela população se transformam em recursos para financiar políticas públicas.

O aprendizado chamou a atenção dos participantes. O estudante da EC 1 do Guará, João Augusto Balbino, destacou que a atividade ajudou a compreender a relação entre os tributos e os serviços públicos. “Eu aprendi que uma parte do dinheiro que as pessoas pagam em impostos volta para a população em forma de escolas, hospitais, postos de saúde e transporte. Gostei de entender como esse dinheiro ajuda a melhorar a vida das pessoas”, disse. O colega Enzo Nogueira Santos, da mesma escola, afirmou que a dinâmica tornou mais fácil entender o destino dos recursos arrecadados. “O que eu mais gostei foi aprender para onde vai o dinheiro dos impostos. Descobri que ele pode ser usado para melhorar serviços e ajudar a população”, explicou.

Segundo a diretora da Escola de Contas Públicas do TCDF, Ivana Dessen, esse é o principal diferencial do projeto: traduzir conceitos complexos para a realidade das crianças. A cada edição, a equipe aperfeiçoa as atividades a partir das contribuições de professores e das escolas participantes. “O TCendo o Futuro é um projeto vivo, em constante evolução, que busca oferecer uma experiência cada vez mais significativa aos estudantes. Adaptamos nossa linguagem para conversar com as crianças de forma simples e acessível. Quando entregamos o dinheiro fictício para que comprem o lanche, mostramos na prática que uma parte desse valor representa os impostos. Depois, explicamos como esses recursos são utilizados pelo governo para financiar escolas, hospitais, estradas e outros serviços que beneficiam toda a população”, destacou.

Depois de conhecerem a missão do TCDF, os estudantes participaram da principal dinâmica do projeto: uma simulação completa das etapas de planejamento, execução, fiscalização e julgamento de uma obra pública. Divididos em grupos, assumiram papéis de representantes da sociedade, gestores públicos, auditores de controle externo e conselheiros do Tribunal de Contas do Distrito Federal.

Utilizando um mapa do Distrito Federal, os alunos debateram onde seria construída uma escola fictícia e quais necessidades da população justificariam aquele investimento. Em seguida, receberam a planta do futuro equipamento público e decidiram coletivamente quais estruturas fariam parte do projeto, como salas de aula, biblioteca, refeitório, quadra esportiva, parquinho e áreas administrativas.

Na etapa seguinte, passaram a atuar como auditores. Os estudantes receberam imagens comparando o projeto original da escola com a obra executada e precisaram identificar problemas, diferenças e inconsistências. A tarefa consistia em verificar se aquilo que havia sido planejado realmente correspondia ao que foi entregue à população.

Após a fase de fiscalização, cada grupo elaborou um relatório apontando os problemas encontrados e propondo soluções. Os resultados foram encaminhados ao “Plenarinho”, simulação inspirada nas sessões de julgamento realizadas pelo plenário do TCDF. Ali, os alunos analisaram os achados da auditoria, discutiram os argumentos apresentados e decidiram quais providências deveriam ser adotadas para corrigir as falhas identificadas.

A simulação permitiu que as crianças compreendessem, na prática, as diferenças entre planejar, executar, fiscalizar e decidir sobre a utilização do dinheiro público, reproduzindo de forma adaptada etapas essenciais do trabalho realizado pelos tribunais de contas. Para Kauã Lustosa da Silva, estudante da EC 1 do Guará, a experiência ajudou a aproximar os conceitos apresentados da realidade dos alunos. “Hoje eu entendi melhor como os impostos funcionam e como esse dinheiro pode ser usado para fazer obras e oferecer serviços para a população.”

Imersão no Tribunal

A programação também incluiu visitas guiadas a diferentes espaços do TCDF. Os estudantes conheceram a Biblioteca Cyro dos Anjos, o Memorial, o Salão Negro, gabinetes e a Presidência. A metodologia do projeto prevê a imersão nos ambientes institucionais para despertar a curiosidade e aproximar os jovens da administração pública.

Ao final da visita, os alunos receberam materiais educativos preparados especialmente para o projeto, incluindo ecobag, cofrinho temático e exemplares do gibi TCendo o Futuro: TCzinha e os Guardiões da Cidadania, criado para reforçar os conceitos de cidadania, finanças públicas e controle social por meio de linguagem acessível ao público infantil.

Sobre o prêmio

A qualidade da iniciativa também foi reconhecida nacionalmente. Em junho de 2026, o TCendo o Futuro conquistou o primeiro lugar na categoria Fiscalização do 11º Prêmio Abel, promovido pela Associação Brasileira das Escolas do Legislativo e de Contas. A premiação reconhece iniciativas voltadas ao controle social, à educação para a cidadania e ao fortalecimento da gestão pública por meio do conhecimento e da formação.

O reconhecimento reforça a proposta do TCendo o Futuro de aproximar crianças e jovens da gestão pública e mostrar que a participação da sociedade também faz parte da fiscalização dos recursos públicos. Para o conselheiro Renato Rainha, a educação e a qualificação são ferramentas fundamentais para melhorar as políticas públicas e fortalecer a cidadania.

Reportagem: Luciana Corrêa
Edição: Polyana Resende